Trauma na infância é fator de risco em adultos com câncer - DE OLHO NA MÍDIA

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Trauma na infância é fator de risco em adultos com câncer

06 agosto 2018

/ DE OLHO NA MÍDIA
Por: Fábio Mazzitelli

O histórico de episódios traumáticos na infância apresenta associação com fatores clínicos e psicológicos em pacientes com os tipos mais comuns de câncer de cabeça e pescoço e deve ser considerado durante o tratamento da doença, indica pesquisa da psicóloga Bruna Amélia Moreira Sarafim da Silva, estudante de pós-graduação da Faculdade de Odontologia de Araçatuba da Unesp (Universidade Estadual Paulista), sob orientação do professor Daniel Galera Bernabé, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Psicossomática do Centro de Oncologia Bucal da universidade.

A psicóloga Bruna Sarafim e o professor Daniel Bernabé: histórico de episódios traumáticos na infância deve ser considerado durante o tratamento de câncer de cabeça e pescoço /  © Fornecida por divulgação

O estudo, que deriva da dissertação de mestrado da psicóloga, reuniu avaliações clínicas, dados biocomportamentais e psicológicos de 110 pacientes com câncer de boca, orofaringe ou laringe do Centro de Oncologia Bucal da Unesp, em Araçatuba (SP). O estudo foi publicado nesta segunda-feira (6) pela revista científica Cancer, da Sociedade Americana de Câncer e uma das mais conceituadas na área de oncologia.


No grupo do estudo, os pesquisadores detalharam os níveis de trauma psicológico que os pacientes passaram na infância, por meio de questionários com perguntas específicas para cinco subtipos de trauma: negligência física (omissão de cuidados); negligência emocional (indiferença em relação às demandas emocionais da criança); abuso físico (comportamentos que levam a agressões corporais); abuso emocional (humilhações, insultos e agressões verbais); e abuso sexual (estupro).

Cerca de 95% dos pacientes com câncer de cabeça e pescoço relataram terem vivenciado pelo menos um evento traumático no período infantil. O principal tipo de trauma na infância reportado pelos pacientes foi a negligência emocional, como a ausência de afeto ou de apoio emocional. Pela primeira vez, foi demonstrada uma associação entre os diferentes subtipos de trauma na infância com dados clínicos, biocomportamentais e psicológicos de pacientes com câncer. Além disso, o estudo foi o primeiro a avaliar a influência do trauma infantil sobre os níveis de ansiedade em pacientes com câncer de cabeça e pescoço.

A pesquisa aponta que o trauma na infância foi fator de risco para sintomas emocionais dos pacientes oncológicos. Os pacientes que relataram maior ocorrência de eventos traumáticos na infância apresentaram quase 12 vezes mais chances de apresentarem níveis elevados de depressão após o diagnóstico do câncer e antes do início do tratamento. Já os pacientes que relataram maior ocorrência de negligência física na infância tiveram 4 vezes mais chances de terem níveis aumentados de ansiedade.

Além disso, maior ocorrência de negligência emocional foi associada a um histórico do paciente de maior consumo de álcool. O alcoolismo, juntamente com o tabagismo, são os dois principais fatores de risco para o desenvolvimento do câncer de cabeça e pescoço. O estudo também encontrou que os pacientes com a doença em estágio avançado relataram maior ocorrência de negligência emocional na infância em relação aos pacientes com a doença em estágio inicial.

“Nosso estudo representa um importante passo para uma melhor compreensão dos mecanismos envolvidos no abuso do consumo de álcool e na ocorrência dos sintomas de ansiedade e depressão em pacientes diagnosticados com câncer. Além disso, fica cada vez mais consolidado que eventos traumáticos experimentados na infância podem influenciar aspectos psicológicos e comportamentais em fases posteriores da vida”, diz a psicóloga e autora do estudo Bruna Sarafim-Silva.

“A história de vida do paciente, incluindo os sentimentos derivados de traumas psicológicos ocorridos na infância, devem ser considerados pela equipe de saúde responsável pelo tratamento oncológico”, complementa o professor Daniel Bernabé, que tem como linha de pesquisa “Psicossomática e Câncer” e estuda com sua equipe a influência dos fatores psiconeuroendócrinos e comportamentais sobre a progressão do câncer de cabeça e pescoço.
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